Vida e Obra do Padre Moura

QUEM É O PADRE MOURA?

José dos Santos Ferreira Moura, nasceu no dia 29 de Abril de 1839, na casa de seus pais, situada no lugar de Ervedosa - freguesia de S. Pedro da Cova, concelho de Gondomar.

Seu pai, António dos Santos, era filho de Manuel dos Santos e de sua mulher Maria Ferreira, do lugar de Soutelo, freguesia de S. Cristóvão de Rio Tinto, neto paterno de José dos Santos e Ana da Ascensão, do lugar de Vila Cova, e materno de André Fernandes e Maria Ferreira, de Soutelo, todos da freguesia de Rio Tinto. Sua mãe, Teresa Isabel, que era de Ervedosa, filha de Jerónimo Pereira dos Santos e de Maria Isabel Martins, neta paterna de Francisco Pereira e Maria Dias, do lugar do Couço, e materna de António Martins e Isabel Maria, de Ervedosa, todos da freguesia de S. Pedro da Cova.

Seus pais tinham casado a 18 de Setembro de 1834, e o seu enlace, contraído à face da Igreja de S. Pedro, fora abençoado pelo nascimento de dois meninos: Manuel, nascido a 21/10/1835 e falecido a 11/08/1836, e António, nascido a 11/03/1837 e falecido também ainda criança.

José, o nosso futuro Padre, foi o terceiro filho do casal, foi baptizado no dia 5 de Maio, na Igreja (hoje inexistente) de S. Pedro da Cova, sendo padrinhos o seu tio paterno José dos Santos e sua tia materna Rita. Mas da sua infância nada se sabe, foi por certo igual à de qualquer outra criança do seu tempo e daquele meio rural em que se criou; humilde mas descuidadosa e risonha até que um luto pesado a ensombrou - a morte do seu pai.

Tinha pouco mais de sete anos quando ficou órfão de pai. O honrado lavrador de Ervedosa teria trinta e seis anos pouco mais ou menos, reza o seu registo de óbito, quando faleceu repentinamente, a 23 de Agosto de 1846. O falecido tinha um irmão, José dos Santos, e que foi padrinho de três dos seus filhos: do primeiro António que morreu ainda criança, do segundo António que tinha na altura três anos e do José.

A lavoura ia dando para o pão suado de cada dia e o magro caldo, mas não era futuro. Entretanto surge um outro acontecimento, o segundo casamento da senhora Teresa Isabel, quatro anos depois de enviuvar. As segundas núpcias foram, precisamente com o seu cunhado e realizaram-se em S. Pedro da Cova a 8 de Julho de 1850, tinha o José 11 anos. Educado num ambiente caseiro, em que imperava o santo temor a Deus, cedo aprendera os rudimentos da doutrina Cristã, cedo se habituara a frequentar a Igreja e a rezar.

Portugal atravessava uma das fases mais conturbadas - o liberalismo. O brasil apresentava-se como um país novo, cheio de oportunidades de para um rápido enriquecimento, e por isso é natural que José tivesse aceite o convite de um tio para trabalhar com ele para o Rio de Janeiro. E José partiu para o Brasil, tinha os seus 12/13 anos. Todavia o seu ideal não era uma vida próspera, à brasileiro e, poucos meses após a chegada ao Brasil regressava ao país natal.

Os desígnios de Deus são poderosos e misteriosos, fazendo com que um jovem abandone um país cheio de promessas pouco depois de ter chegado à “terra da promissão”.

José frequentou as aulas do ensino primário, na sua terra natal, pelo professor José Pereira d’Assunção e Silva, mas foi completar a sua instrução no colégio da Formiga (Ermesinde), tendo como objectivo definido, o estado eclesiástico. O jovem, atingira os 17 anos de idade e progredia no estudo do Latim no colégio do Padre Cosgaya. A sua vocação firmara-se, e ele pediu para ser admitido à Tonsura e quatro Ordens Menores.

Procedeu-se à sua habilitação de genere e moribus: depôs o seu antigo professor e vários vizinhos de notória credibilidade: “era sossegado, pacífico e muito digno de receber as Ordens que pretende”. Recebeu a Tonsura e as quatro Ordens Menores de leitor, Exorcista, Ostiário e Acólito, nas Têmporas do Advento, Dezembro de 1856, das mãos do bispo do Porto D. António Bernardo da Fonseca Moniz. Depois, entrou no Seminário do Porto e aí se dedicou de alma e coração à sua preparação para futuro ministro de Cristo, conseguindo excelentes classificações nos estudos e óptimas referências quanto ao comportamento.

Sua mãe e seu padrasto, reconhecendo no filho e enteado muito desejo e vocação para o estado e vida eclesiástica, doam-lhe os campos da Cavada de Cima, entre outras bouças. Decorria o mês de Outubro de 1860 e ordinando contava 21 anos e meio de idade.

Feitos os Exercícios Espirituais, José deslocava-se a Braga com “reverendas” do Vigário Capitular, para naquela Metrópole receber o Subdiaconado. Foi nas Têmporas do Advento, sábado 22 de Dezembro de 1860, que o Arcebispo D. José Joaquim de Azevedo Moura lhe conferiu, na capela do Paço Arquiepiscopal, a primeira das Ordens Maiores. Em idênticas circunstâncias, recebeu o Diaconado a 25 de Maio de 1861. Passado um ano e tal, nas Têmporas de Setembro de 1862, concluídas as aulas do Seminário e prévios exames e preparação espiritual, recebeu finalmente a Ordenação Sacerdotal.

No princípio do seu episcopado à frente da Igreja Portucalense, o bispo D. João de França Castro e Moura nomeou-o capelão das Dominicanas de Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia. O facto de pertencer à hierarquia eclesiástica nunca o fez abdicar da sua capacidade de actuação política, tanto que aderiu ao Partido Regenerador, tendo sido eleito, quando capelão, procurador à Junta Geral do Distrito do Porto pelos concelhos de Gondomar e Valongo, em 1871.

Por morte do Abade da freguesia de São João da Foz do Douro, Padre Alexandre de S. Tomás Pereira, foi o capelão de Corpus Christi nomeado pároco do Foz em 20 de Fevereiro de 1873. A 7 de Novembro de 1876, o Padre José dos Santos Ferreira Moura, passou de simples pároco encomendado a abade colado da freguesia. Tomou posse deste a 12 no mesmo mês e ano, e o seu relacionamento com a população decorreu da melhor forma.

Naquele tempo a Foz era uma pequena povoação sobretudo de pescadores. Mas com o aproximar do verão transformava-se totalmente; na época balnear, a Foz passava de humilde povoação de pescadores a centro de vida mundana e intelectual. O Padre Moura habitou o primeiro andar da residência paroquial, anexa à Igreja de S. João da Foz. Desde cedo a sua enérgica e amável personalidade cativou a população da Foz, tendo-se revelado um excelente orador, um espirito brilhante, não deixando de participar em diversas actividades de ordem social e demonstrando um enorme empenhamento na prática da virtude da caridade. Esta foi, sem dúvida, a sua principal preocupação.

A Caridade era para o Padre José Moura o meio mais perfeito de identificação com o Divino Mestre. E se os seus sermões realçavam o valor desta virtude teóloga, as suas acções eram um exemplo vivo da sua prática, o exemplo dum verdadeiro cristão. O Padre José Moura foi um pároco exemplar, esforçando-se sempre por dignificar o culto divino através de várias manifestações. Dava especial importância à festa da Primeira Comunhão e do Crisma.

A Banda Marcial da Foz sempre se colocou à disposição do Abade Moura, nunca aceitando dinheiro daquele que foi, em 1883, um dos seus principais fundadores. Criou a corporação dos Meninos da Devoção de Nossa Senhora da Graça, tendo suportado algumas despesas necessárias.

No campo social, para além de ter criado a Banda Marcial da Foz, foi um dos criadores, em 1877, da Associação de Socorros Mútuos da Foz do Douro, hoje já desaparecida.

No dia 22 de Maio de 1887, o Padre José Moura, foi fazer uma prática na Capela de Nosso Senhor da Ajuda, em Lordelo, como tantas vezes o tinha feito. Todavia, já no final do sermão, sentiu-se mal - um resfriamento que rapidamente se tornou em pneumonia dupla. Apesar dos cuidados intensivos de três médicos seus amigos, da presença de enfermeiros e amigos, Deus quis oferecer-lhe um lugar melhor e levou-o em apenas quinze dias. No dia 6 de Junho pela manhã, compreendeu perfeitamente que se aproximava o termo da vida e pediu pela segunda vez a Comunhão. Perto das 2 horas da tarde, pediu a Extrema Unção. Depois desta pediu que lhe dessem um pequeno Crucifixo que possuía, e com ele nas mãos juntas principiou a rezar o Miserere. Num dado momento a boca ficou semi aberta, como interrompida na articulação duma palavra. Eram 15 horas e um quarto - Morrera. Tinha apenas 48 anos de idade, uma vida de dedicação que não acaba aqui.

Várias foram as reacções à morte do ilustre abade. A junta paroquial da Foz reuniu-se em assembleia extraordinária, convocada pelo seu Presidente que, apesar de adversário político, fez um elogio das várias qualidades do abade José Moura.

O caixão foi colocado sobre uma eça, a igreja toda forrada de crepe e a chave entregue ao seu amigo íntimo Sr. José de Castro e Silva Maia. O cadáver vestia os hábitos paroquiais, e com as mãos erguidas sobre o peito segurava o crucifixo. Com o anoitecer, principiou a afluir à igreja uma multidão enorme.

Para o abade da Foz, morte não significou esquecimento, apesar da memória dos homens ser curta. Apenas três dias passados após a sua morte, reuniu-se um grupo de amigos na residência paroquial com o fim de planear a construção de um mausoléu no cemitério da Foz. O seu túmulo tornou-se, desde então, um local quase de peregrinação. Tal como em vida, mesmo depois da morte, muitos são os que o procuram, na esperança de uma ajuda.

A Igreja ainda não se pronunciou sobre tal caso, mas o povo desde há muito tempo o chama de “Padre Santo”, e com maior convicção o afirma, desde que, há cerca de 63 anos, 37 após a sua morte, descobriu que o corpo do antigo abade da Foz estava incorrupto.

No ano de 1924, devido a obras de terraplanagem no cemitério, foi necessário elevar o jazigo do Padre Moura ao nível do terreno. Durante essas obras descobriu-se que o corpo estava bem conservado. Logo uma multidão se aglomerou no cemitério da Foz quando a notícia se espalhou. Apesar dos protestos da maioria das pessoas ali presentes, que exigiam que o corpo fosse exposto, o caixão foi novamente fechado e introduzido no jazigo.

Todavia não tinha ficado convenientemente fechado, pelo que passados 5 meses, o delegado da Confraria do Santíssimo Sacramento, encarregado de cuidar do mausoléu, requereu autorização à junta da Paróquia para o selar. Tendo obtido a respectiva autorização, quando se preparava para o fazer, juntou-se uma enorme multidão que exigia que o corpo do Abade Moura ficasse em exposição, a bem ou a mal. Perante tal situação, foi o corpo exposto, tendo o povo desfilado em silêncio junto à urna, com a promessa de que futuramente ficaria em exposição.

Nessa altura a Confraria encarregou dois médicos para fazerem um exame rigoroso para se determinar as causas da não decomposição do corpo do Abade Moura.

No final do relatório sobre o exame, apresentado a 4 de Novembro de 1924, pode ler-se:

”…As condições de exposição necessárias para a mumificação, não são permitidas pela natureza do terreno do cemitério nem pelas condições de inumação, que, aliás, foram as de todos os outros, os quais em 37 anos se consumiram inteiramente. As razões desta ordem, bem como as conclusões do exame, levam os declarantes a afirmar que o fenómeno a que acabam de fazer referência é invulgar e insatisfatoriamente explicado pelos dados da ciência.”

Como era da vontade geral que o corpo do Abade Moura ficasse permanentemente em exposição, construiu-se uma outra comissão encarregada de angariar fundos para a construção de um mausoléu ,mais sumptuoso e com capela anexa. A 6 de Junho de 1927, no 40º aniversário da sua morte, o corpo foi revestido de novas e mais ricas vestes sacerdotais, e encerrado numa urna de cristal. Entretanto foi submetido à prova da cal, uma forma de ver se o corpo se decompunha, o que não aconteceu.

No dia 24 de Agosto de 1929, foi a urna definitivamente colocada no túmulo de mármore do novo mausoléu, só completado em 1938 e aonde repousa até hoje.

O Comércio do Porto de 27 de Agosto de 1929 referiu-se ao acontecimento, publicando com a notícia uma fotografia do mausoléu. No jornal lisboeta - A VOZ - do mesmo dia, no espaço reservado ao Porto, publicou também uma notícia sobre o Abade Moura.

Bem Vindo ao site da AAPM — Associação de Amigos do Reverendo Padre José dos Santos Ferreira Moura

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